A vitória que mudou de nome

A festa de Nossa Senhora do Rosário nasceu da batalha de Lepanto e começou por ser de Santa Maria da Vitória. Neste mês de outubro, o mesmo terço volta a ser pedido, agora para que acabem as guerras.

Maria e os santosIgreja e história
Nossa Senhora, entre nuvens e anjos, rodeada de santos que lhe pedem pela vitória.
Paolo Veronese, Alegoria da Batalha de Lepanto (pormenor), c. 1572. Galerias da Academia, Veneza.

Em resumo

A 7 de outubro de 1571 houve uma grande batalha no mar, perto de Lepanto, na Grécia, e os cristãos ganharam. Antes da batalha, o Papa São Pio V tinha pedido aos cristãos que rezassem o terço. Para agradecer a vitória, criou uma festa de Nossa Senhora, que hoje se chama Nossa Senhora do Rosário. Este mês, o Papa Leão XIV volta a pedir o terço, agora para que acabem as guerras.

No domingo 7 de outubro de 1571, à entrada do golfo de Patras, diante de Lepanto (a atual Naupacto, na Grécia), encontraram-se duas armadas com mais de duzentas galés cada uma. Uma era a otomana, a outra a da Liga Santa, que São Pio V tinha juntado em maio desse ano com Filipe II de Espanha e a República de Veneza. Numa das galés da Liga, a Marquesa, ia um soldado espanhol com febre, que não quis ficar abaixo do convés e levou dois tiros de arcabuz, no peito e na mão. Chamava-se Miguel de Cervantes.

A bordo também se rezou, e não pouco. Em Messina, antes de a armada partir, a meio de setembro, os homens tinham-se confessado e comungado para ganhar o jubileu que o Papa lhes mandara pelo núncio. No dia da batalha, perto do meio-dia, com as duas linhas já à vista, D. João de Áustria, meio-irmão de Filipe II e comandante da Liga aos vinte e quatro anos, ajoelhou-se armado na proa da sua galé, a Real. Por cima dele ondeava o estandarte de damasco azul com Cristo crucificado que São Pio V lhe enviara. A armada ajoelhou-se com ele, cada um no seu posto, e os frades que iam nas galés deram a absolvição geral.

Em Roma, longe do golfo, a frota só podia ser ajudada de joelhos. Nos dias anteriores, São Pio V tinha pedido aos romanos que rezassem o terço, e quem ficou em terra rezou-o pela vitória dos que tinham partido. Contam os seus primeiros biógrafos que, nesse domingo, o Papa despachava com o tesoureiro quando se levantou de repente, abriu uma janela, ficou um bom bocado a olhar o céu e o mandou ir dar graças a Deus, porque a armada acabava de vencer. O tesoureiro, homem prudente, guardou o caso para os mais chegados, não fosse o Papa ficar mal visto se a vitória não se confirmasse, mas apontou em casa o dia e a hora. A janela chega-nos assim pela tradição piedosa, enquanto o pedido do terço está nos documentos, e é desse terço que a festa de hoje tira o nome.

A notícia levou duas semanas a chegar. Na noite de 21 para 22 de outubro, um correio do núncio em Veneza trouxe-a ao cardeal Rusticucci, que mandou acordar o Papa. São Pio V chorou de alegria e disse as palavras do velho Simeão no Templo, o Nunc dimittis que a Igreja reza todas as noites nas Completas: agora, Senhor, podes deixar ir em paz o teu servo (Lc 2, 29). De manhã cedo já estava em São Pedro a mandar cantar o Te Deum. Morreu a 1 de maio do ano seguinte.

Mais de três séculos depois, Leão XIII contou esta história numa encíclica de 1883 e juntou numa só frase o mar e a terra. No golfo esperavam os soldados, e em terra “homens inermes, com piedosa e suplicante falange, invocavam Maria, e com a fórmula do santo Rosário repetidamente a saudavam, a fim de que assistisse os combatentes até à vitória” (Supremi apostolatus officio, n.º 7). Inermes quer dizer desarmados, e o Papa diz com todas as letras o que aqueles homens pediam, que era a vitória. Paolo Veronese pintou Lepanto também em dois andares: em baixo, a batalha; no alto, entre nuvens e anjos, Nossa Senhora rodeada de santos a interceder.

A batalha ganhou-a a Liga Santa, a um preço alto para todos, com cerca de oito mil mortos na armada cristã e muitos milhares mais na otomana. Nem sequer acabou com o poder dos turcos no mar. Em Constantinopla, o grão-vizir terá dito ao embaixador de Veneza que os turcos, ao tirarem Chipre aos venezianos, lhes tinham cortado um braço, ao passo que a Liga, ao vencer a armada turca, só lhes rapara a barba, que volta a crescer mais cerrada. E cresceu: durante o inverno construíram outra armada, que no ano seguinte já andava no mar. Cervantes saiu de lá com a mão esquerda inutilizada, e num prólogo de 1613, o das Novelas Exemplares, chegou a escrever que tinha a ferida por bonita, embora parecesse feia.

Dois anos depois, no prólogo da segunda parte do Dom Quixote, respondeu a quem fizera troça dele por ser velho e maneta, com um orgulho de soldado que ninguém lhe pode levar a mal. Queixou-se de que lhe apontassem a idade, como se estivesse na mão dele parar o tempo. Da mão falavam como se a tivesse estropiado nalguma taberna, quando foi “en la más alta ocasión que vieron los siglos pasados, los presentes, ni esperan ver los venideros” (na mais alta ocasião que viram os séculos passados e os presentes, nem esperam ver os vindouros).

Em 1572, em ação de graças, São Pio V instituiu para o aniversário da batalha uma festa de Santa Maria da Vitória. O nome durou pouco, porque logo em 1573, a pedido dos dominicanos, Gregório XIII lhe deu o título do Rosário. Clemente XI estendeu a festa a toda a Igreja em 1716, e São Pio X, no início do século XX, fixou-a a 7 de outubro, a data de Lepanto, onde se mantém. Ficou assim com a data da batalha e com o nome da oração que tinha pedido a vitória, e ainda bem.

Dir-se-á que é estranho ligar Nossa Senhora a uma batalha com milhares de mortos, e que a vitória a ganharam os soldados e os remadores, e não o terço rezado em Roma. Rezar pela frota nunca quis dizer dispensar os remos, e na Real ninguém achou que a absolvição dispensava as armas. A mulher do pescador que reza quando o mar está mau sabe que o leme está nas mãos do marido, e é por essas mãos que pede a Deus, a quem agradece quando o barco volta. A Igreja não pensa de outra maneira, e o próprio Leão XIII, logo a seguir às palavras já citadas, escreve que “Nossa Senhora, movida por aquelas preces, os assistiu” (n.º 7).

Foi Leão XIII, aliás, quem fez de outubro o mês do Rosário. Cem anos depois da sua encíclica, no Angelus de 2 de outubro de 1983, São João Paulo II pegou no costume e mudou-lhe o pedido: “Não se trata hoje de pedir grandes vitórias, como em Lepanto e em Viena, mas antes de suplicar a Maria que nos torne valorosos combatentes contra o espírito do erro e do mal, com as armas do Evangelho, que são a Cruz e a Palavra de Deus.” Continua a haver combatentes e armas, só que o adversário deixou de ser uma armada e passou a ser o erro e o mal, e nessa guerra não há nenhum povo do outro lado.

Este ano, foi em Lourdes, a 27 de setembro, que o Papa Leão XIV convidou os fiéis a rezar o terço durante o mês de outubro, “com a intenção especial de que cessem as guerras e que a paz se estabeleça entre os povos em conflito. Acompanhemos esta oração com ações concretas de penitência e misericórdia, com o compromisso de promover sempre o diálogo e a reconciliação.” Repetiu o convite no Angelus do último domingo, dia 4, e lembrou que até as crianças foram chamadas, com a iniciativa Um milhão de crianças reza o Santo Rosário, da Fundação Ajuda à Igreja que Sofre, que acaba hoje.

Na frase do Papa ninguém pede que ganhe um dos lados, e quem combate tem apenas o nome de povos em conflito. Leão XIV quer também o terço acompanhado de “ações concretas”, e a penitência, a misericórdia, o diálogo e a reconciliação de que fala não se fazem só de joelhos. Quem quiser responder ao convite ainda vai a tempo, porque outubro mal começou.

Hoje, quarta-feira, passam quatrocentos e cinquenta e cinco anos sobre aquele domingo de Lepanto. O quadro de Veronese continua com os seus dois andares, a batalha em baixo e a oração no alto. Queira Deus que, desta vez, a oração do andar de cima alcance que o de baixo fique vazio.

Fontes: Leão XIII, encíclicas Supremi apostolatus officio (1 de setembro de 1883), n.os 7 e 12, e Superiore anno (30 de agosto de 1884); São João Paulo II, Angelus de 2 de outubro de 1983; Leão XIV, Angelus em Lourdes (27 de setembro de 2026) e Angelus de 4 de outubro de 2026; Miguel de Cervantes, prólogos das Novelas Exemplares (1613) e da segunda parte do Dom Quixote (1615); Susana García Ramírez, Miguel de Cervantes: “Fue soldado muchos años”, Academia de las Ciencias y las Artes Militares (2024); HistoryLab, sobre a galé Marquesa; Girolamo Catena, Vita del gloriosissimo papa Pio Quinto (1586); Ludwig von Pastor, História dos Papas, vol. XVIII; Cayetano Rosell, Historia del combate naval de Lepanto (1853); William Stirling-Maxwell, Don John of Austria (1883); Onur Yıldırım, The Battle of Lepanto and its Impact on Ottoman History and Historiography; Catholic Encyclopedia, artigos Lepanto, Rosary e Pope St. Pius V; New Liturgical Movement (2025), sobre a reforma de São Pio X; Vatican News, páginas de Nossa Senhora do Rosário e de S. Pio V; Franciscan Media, Our Lady of the Rosary.